Análise: Patricia Poeta dá leveza e charme a telejornal sisudo e careta

Patricia Poeta na bancada do Jornal Nacional, do qual se despedirá em dezembro, após três anos ...

Patricia Poeta na bancada do Jornal Nacional, do qual se despedirá em dezembro, após três anos

Por Carlos Amorim, especial para o Notícias da TV

Fora o motorista e o trocador, somos todos passageiros. Nunca essa frase da linguagem popular foi tão perfeita para descrever a saída de Patricia Poeta do Jornal Nacional. Provavelmente, não é verdade que ela tenha sido escolhida como uma substituta de Fátima Bernardes com mandato de apenas três anos. Foi isso que a direção da TV Globo afirmou em comunicado oficial, distribuído na segunda-feira (15). Mas soa com a falsidade habitual das chamadas “notas oficiais”. O sábio Millôr Fernandes, certa vez, escreveu: “A notícia foi confirmada por um desmentido oficial”. Me parece que a máxima genial cabe perfeitamente nesse episódio.

Quando Patricia Poeta foi anunciada para o lugar de Fátima Bernardes (dizem as más línguas que a Globo queria separar o casal Fátima-William Bonner na bancada do JN), a alta direção do jornalismo platinado deu entrevista coletiva, transmitida em circuito fechado de TV, para dizer que a Patricia era uma unanimidade entre os crachás mais poderosos da emissora.

Carlos Henrique Schroder, hoje diretor-geral da emissora; Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo; Silvia Faria, diretora executiva da área; e o próprio Wiliam Bonner haviam concordado com a substituição. Portanto, publicamente, uma unanimidade. Na ocasião, no início de dezembro de 2011, ninguém falou em mandato-tampão.

A bela Patricia emprestou leveza e charme ao telejornal sisudo, até careta mesmo. Um telejornal cujo chefe se assina como “editor-chefe e apresentador”, como se as duas funções se equivalessem. Ela é das mais seguras apresentadoras do gênero. O sonho de consumo de qualquer editor-chefe, pela firmeza na narração, capacidade de improvisar e de superar falhas eventuais.

Mas, para tristeza dela, o editor-chefe do JN é um concorrente na apresentação. E ainda por cima marido da ex-apresentadora Fátima Bernardes. Que situação! Para nós, reles telespectadores do Jornal Nacional, que durante a Ditadura Militar (1964-1985) era conhecido como “a agência nacional televisiva”, resta a surpresa.

É claro que a Patricia Poeta não era nenhuma sumidade, nada comparável aos históricos “âncoras” americanos, como o inesquecível Dan Rather, da CBS, de cujo exemplo surgiu aqui no Patropi essa mania de chamar de “âncora” um mero apresentador.

Poeta não era nenhuma jornalista notável, mas era esforçada, lia e pesquisava os temas do telejornal, e participava dele com a maior simpatia. O público, como este locutor que vos fala, há de sentir falta da moça. Mas, no Império Global, as coisas são assim mesmo: substitui-se competência por obediência. Bem à imagem de seu Criador.

Patrícia Poeta protagonizou algumas patacoadas, na Copa do Mundo, na entrevista com Marina Silva etc. Mas não foi obra dela. É só o teleprompter [aparelho em que os apresentadores leem as notícias] apagar que todos viram anões. Alguém escreve e manda executar o "pataquismo".

Aliás, exilar jornalistas na Globo News, uma espécie da “Sibéria Global”, virou rotina. E o público que se dane. Coisas como essas explicam _e justificam_ o lento e inexorável declínio da emissora. Causa principal: o desrespeito com a inteligência do telespectador.

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CARLOS AMORIM é jornalista. Trabalhou na Globo, SBT, Manchete, SBT e Record. Ocupou cargos de chefias em quase todos os telejornais da Globo. Foi diretor-geral do Fantástico. Implantou o Domingo Espetacular (Record) e escreveu, produziu e dirigiu 56 teledocumentários. Ganhou o prêmio Jabuti pelo livro-reportagem Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado. É autor de CV_PCC - A Irmandade do Crime e O Assalto ao Poder. Criou a série 9mm: São Paulo, da Fox. Atualmente, se dedica a projetos de cinema.
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#SintoniaFina

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