Luzia Tereza: A paraibana que bateu recorde na arte de contar estórias

A maior contadora de estória do mundo era de Guarabira, PB Por Joseilton Gomes, com colaboração...

A maior contadora de estória do mundo era de Guarabira, PB
Por Joseilton Gomes, com colaboração do professor historiador Vicente Barbosa

Contar estórias é diferente de contar histórias. Quem nasceu entre as décadas de 30 e 50, por exemplo, sabe muito bem sobre isso. Sabe o que é se reunir à noite no terreiro de casa para ouvir os mais velhos no exercício da milenar arte de narrar, que nasceu com o homem e o tem acompanhado ao longo de sua vida. Este artigo destaca a paraibana que bateu recorde na arte de contar estórias: Luzia Tereza.

“A permanência em nossos dias da milenar arte de narrar, que nasceu com o homem e o tem acompanhado ao longo de sua existência, revela a importância das narrativas para o ser humano pela necessidade de reviver experiências e conviver com a fantasia”, defende o pesquisador e escritor espanhol Fernando Savater.

Em consenso, vários pesquisadores afirmam que um escravo grego já liberto de nome Esopo foi um dos pioneiros na arte de narrar, por volta de 500 a.C., quando já circulava pela Grécia uma coletânea e fábulas esópicas.

Com o passar dos tempos, outro nomes se destacaram mundialmente na arte de contar estórias, como o francês Jean de La Fontaine, considerado “Pai da Fábula Moderna”. Ele é autor da famosa frase “sirvo-me dos animais para instruir os homens”, e também autor da obra “Fábulas”, que contém os contos “A cigarra e a formiga” e “A raposa e as uvas”.

Já o francês Charles Perrault foi o responsável pelo surgimento dos chamados ‘contos de fadas’. Os irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, da Alemanha, pesquisaram e adaptaram fábulas à literatura infantil dando origem a personagens como Branca de Neve, Rapunzel e João e Maria.

O dinamarquês Hans Cristians Anderson é outro nome famoso da literatura infantil – ele é autor do “Patinho Feio”. Em “Contos populares reunidos”, o português Gonçalo Fernandes Trancoso conta as “estórias de Trancoso”.

Em nosso país, escritores famosos como Monteiro Lobato, Câmara Cascudo e o guarabirense Rodrigues de Carvalho, por exemplo, têm mérito por preservarem as estórias que ouviram de anônimos, tendo, posteriormente, registrado isso em papel para a posteridade.

Há registro de muitos contadores de estórias famosos, mas a maior de todas foi dona Luzia Tereza. Natural de Guarabira (PB), ela nasceu no dia 15 de março de 1909 e residiu na zona rural da cidade.

Dona Luzia não teve infância comum, com diversão e brincadeiras. Aos oito anos começou a trabalhar no roçado ajudando o pai. E com a morte da mãe, teve que ajudar a criar os 15 irmãos menores. Ela teve uma vida de sacrifício e dificuldades, porém também tinha uma boa memória e a devida sensibilidade, elementos essenciais ao contador de estórias. Dona Luzia Tereza é considerada a maior narradora de estórias do mundo.

Boa parte das estórias que sabia, Luzia Tereza aprendeu no sítio onde morava. Havia ali as noitadas em que a vizinhança se reunia no terreiro, à luz da Lua e de candeeiros, para ouvir as estórias de dona Luzia.

Conforme Altimar Pimentel, pesquisador e folclorista da Universidade Federal da Paraíba, Luzia Tereza gravou em sua mente 236 contos, um recorde mundial, bem mais que os geniais irmãos Grimm que só conseguiram memorizar 220 contos populares.  

“O que impressiona em Luzia Tereza é a expressividade de seu rosto, dos braços magros e longos, as mãos descarnadas que se erguiam ou que ela utilizava em gesticulações tão preciosas. A expressão corporal compunha com variações vocais, às inflexões apropriadas os movimentos mágicos e cativantes em que narrava. Os gestos desenhavam personagens e situações, evocavam imagens, delineavam seres e coisas. A velhinha calada, acanhada, tímida transmudava-se narrando estórias de príncipes, princesas e fadas: vivia cada personagens e colhia exemplos locais para melhor visualização da narrativa”, testemunha Altimar.

O público ouvinte de dona Luzia Tereza era composto, em sua maioria, por crianças. Atentas, elas ficavam felizes em ouvir as estórias e até pediam para repetir. “Conte outra vez”, diziam. Embaladas por uma narração singular, então, algumas delas até adormeciam e sonhavam com esse mundo literário.

Dona Luzia sofreu muito em vida. Ela passou seus últimos dias no Hospital Padre Zé, onde também amenizava as dores dos enfermos contando estórias. Seu único filho a abandonou muito cedo e dele não se teve mais notícias.

Católica fervorosa, seu último relato á professora Myriam Gurgel Maia foi angustiante: “Meu bom Jesus, eu não tenho ninguém nesse mundo. Se eu morrer, não deixo falta a ninguém. Eu sei que é pecado pedir pra morrer”. E nesse encontro, narrou sua última estória: “A menina dos cabelos de outro”. Era 26 de janeiro de 1983.

Com o intuito de preservar a arte da narrativa, o Núcleo de Pesquisas e Documentação Popular da UFPB desenvolveu o projeto ‘Jornada de Contadores de Estórias da Paraíba’ entre os anos de 1977 a 1983. A pesquisa resultou em dois volumes da obra “Estórias de Luzia Tereza”.

Citando o escritor Guimarães Rosa, o professor Vicente Barbosa também acredita que “as pessoas não morrem, as pessoas se encantam”. “Assim, no dia 31 de maio de 1983, dona Luzia Tereza se encantou e foi viver tranquila num reino encantado entre fadas, príncipes e duendes, longe da ambição e da maldade humana”, afirma Barbosa em homenagem póstuma a guarabirense Luzia Tereza. #Cultura

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2 comentários

  1. "Meu bom Jesus, eu não tenho ninguém nesse mundo. Se eu morrer, não deixo falta a ninguém. Eu sei que é pecado pedir pra morrer". É de travar a garganta. Ótimo texto

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