Biógrafo de Roberto Carlos critica especial de Tim Maia: 'Constrangedor'

O biógrafo do cantor Roberto Carlos, Paulo César de Araújo, assistiu ao   especial sobre a vida...


O biógrafo do cantor Roberto Carlos, Paulo César de Araújo, assistiu ao especial sobre a vida de Tim Maia, exibido pela Globo, com indignação. Paulo falou à Rádio Estadão na noite dessa segunda sobre os cortes feitos pela emissora para exibir o filme em dois episódios. Na edição da Globo, foram retiradas partes em que Tim aparecia sendo humilhado por Roberto no início de sua carreira. Algumas cenas do longa foram baseadas na obra de Paulo, Roberto Carlos em Detalhes, uma biografia do cantor proibida de ser vendida desde 2007.

"Eu vi o programa, até porque sou fã do Tim Maia também. E estava nesta expectativa do que prometia o programa, que, eu imaginava, iria ampliar o que estava no cinema. Imaginei que seria algo maior, acrescido de depoimentos. De fato eles acrescentaram, mas para minha surpresa eu constatei que a parte mais controversa da relação do Tim com o Roberto, nessa tentativa de se apresentar na jovem guarda, foi cortada e apareceu o Roberto dizendo que na verdade ele tinha ajudado o Tim Maia. Que tudo foi bacana, que não houve conflito, não houve contradição, não houve nada. Isso eu achei constrangedor", diz Araújo.

O biógrafo, que lançou no ano passado o livro O Réu e o Rei (Companhia das Letras), em que narra sua disputa judicial com Roberto Carlos pela liberação da biografia assinada por ele, afirma que a emissora e o músico possuem um acordo, que a leva a protegê-lo, mantendo "limpa" sua image. "Isso acontece desde 1974, desde que o Roberto assinou o contrato com a Globo. Para além do especial que ele apresenta, eles têm um contrato também, pela forma que a Globo tem se comportado ao longo deste tempo, de preservar a imagem do Roberto Carlos. Isso não é um fato inédito. Isso sempre aconteceu. A Globo sempre procurou valorizar os aspectos positivos, que engradeçam o Roberto, e omitir e apagar o que pode prejudicar sua imagem. No livro O Réu e o Rei eu conto isso em detalhes."

No filme Tim Maia, dirigido por Mauro Lima, Roberto Carlos (vivido por George Sauma) deixa Tim esperando ao fim de um show e pede ao seu assessor que dê dinheiro ao cantor de soul. Ele então amassa algumas notas e as joga no chão, Tim se abaixa e recolhe o dinheiro. No especial para a TV, assinado por Luis Felipe Sá, a cena foi cortada e substituída por Roberto Carlos nos dias de hoje, narrando como ajudou Tim no início da carreira. Os dois cantores dividiam violões no grupo Sputniks, nos anos 1950, enquanto tentavam a fama. Após uma apresentação no Clube do Rock, na TV Tupi, de Carlos Imperial, Roberto negocia uma participação solo no programa, que dá início à rusga entre os dois.

"Quando Tim é preso em 1966, o Roberto já está no topo, já é consagrado, tinha lançadoQuero que Tudo Vá Para o Inferno. É o auge da Jovem Guarda e o Tim Maia passa dez meses preso. Quando ele sai e vai atrás do Roberto, aí a turma do Roberto diz: 'Roberto, tem o Tião Maconheiro, presidiário, querendo falar com você'. É humano, é compreensível a reação do Roberto naquele momento, não estava nada definido para ele. Só para dizer que as coisas são mais complexas do que parecem. Não é que o Roberto barrou o Tim Maia, nem que ele tenha aberto todas as portas para ele", ameniza o escritor.

"Isso tem a ver com o nosso debate hoje no Brasil a respeito das biografias autorizadas. Essa visão que leva a desejar só biografias autorizadas. Essa visão autoritária, excludente, patrimonialista, de dizer a 'minha historia é um patrimônio meu', como disse o Roberto Carlos. Por que ele diz isso? Porque ele quer contar essa visão, cor de rosa, um passado sem conflitos, sem contradições. Por isso que essa ideia não pode prevalecer no Brasil, porque o resultado vai ser isso que vimos no especial da Globo". (Veja, com Estadão Conteúdo)

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