Padre Kleber, novo administrador paroquial da Catedral da Luz, concede entrevista exclusiva ao Blog do Ikeda

O padre Kleber Rodrigues, novo administrador paroquial da Catedral da Luz, em Guarabira (PB), aceitou convite da editoria do Caderno de...


O padre Kleber Rodrigues, novo administrador paroquial da Catedral da Luz, em Guarabira (PB), aceitou convite da editoria do Caderno de Matérias e concedeu uma entrevista exclusiva ao blog.

Na conversa com o editor, ele fala de sua vocação sacerdotal, da rotina de um padre, comenta sobre os preparativos para a chegada do novo bispo diocesano e avalia o papado de Francisco. Ao responder um pouco sobre sua vida pessoal, o sacerdote cita referências e expõe sua opinião sobre alguns temas atuais: política, família, religião, celibato, Natal e expectativas para 2018. Saiba para que time o Pe. Kleber torce, o que ele gosta de ler e ouvir. Confira a entrevista!  

O Blog do Ikeda também publicou entrevistas exclusivas com a jornalista Rachel Sheherazade e com o ex-bispo de Guarabira Dom Lucena.  

Blog do Ikeda - A partir de quando o senhor sentiu que tinha vocação para o sacerdócio, e se teve alguma influência familiar e (ou) eclesial?

Pe. Kleber Rodrigues - Por volta dos 16 anos percebi que, diferente dos meus amigos, eu não contava com muitos sonhos de vida matrimonial ou profissional, mas me sentia realizado servindo ao meu Deus. Depois de muito refletir decidi que queria fazer algo especial com a minha vida: queria entregá-la em favor dos outros, não possuindo nada que fosse meu, e passar todos os meus dias sendo instrumento de Deus na vida das pessoas.

Além da influencia família do meus avós que sempre foram muito católicos e me ensinaram as primeiras orações, também tive a honra de ser “coroinha” de um grande sacerdote, o inesquecível Mons. Fidelis, que com seu testemunho muito me inspirou no desejo de ser um “homem de Deus”.

2 - Em uma palavra, defina sua ordenação sacerdotal e comente.

Inesquecível.

Um seminarista sonha com a sua ordenação durante anos, e comigo não foi diferente. Foram quase 10 anos de expectativa. Outro fator que torna o momento assim tão inesquecível é o significado teológico e espiritual de, pelo rito litúrgico, ser consagrado e ungido como tantos profetas e reis do povo de Israel para exercer aquele mesmo sacerdócio que Cristo instituiu. Não esquecerei nunca daquele dia que Deus me fez um ungido (alter Christus).

Pe. Kleber durante entrevista no rádio
3 - Como é a rotina de um padre (o senhor pode levar em conta sua rotina para responder)?

Evidentemente cada padre cria seu próprio ritmo de trabalho de acordo com suas condições e aptidões, mas não tenho dúvida que em todos os casos a rotina de um sacerdote é algo cansativo e exigente. Digo sempre que o padre é um homem que lida com todos os extremos da vida em poucos minutos. Por exemplo: certo dia durante a manhã atendi inúmeras crianças em confissão, o que já é algo muito bonito e marcante porque na confissão conseguimos “tocar a alma” de alguém. Após as confissões, ainda extasiado pela bonita experiência que vivi com as crianças, atendi um jovem que estava à beira do suicídio e foi ao meu encontro apenas para entregar uma carta de despedidas para os seus pais. Logicamente não pude deixar de tentar dissuadi-lo, e graças a Deus pude fazer algo para ajudá-lo. Nesse mesmo dia, celebrei a missa numa comunidade distante quase 60 km da cidade que não via um padre há três meses e no fim da tarde celebrei o casamento de um casal de amigos de infância que sonhavam que eu pudesse realizar a cerimônia. Terminado o casamento, enquanto voltava pra casa, recebi a trágica notícia que a esposa de um grande amigo engajado na comunidade havia falecido de maneira repentina. E dali por diante tivemos que providenciar todos os preparativos de velório e do sepultamento.

Ou seja, em algumas horas fui de um externo de alegria ao extremo da dor, e com toda certeza o sacerdote precisa saber administrar tudo isso no seu coração, caso contrario poderá se tornar apenas uma ativista ou “profissional do sagrado” e não um dispensador dos mistérios de Deus.

Além, destes afazeres, a responsabilidade fiscal e administrativo nas obras da igreja hoje tomam grande parte do nosso tempo. Já que a igreja possui status de uma “empresa sem fins lucrativos” é necessário seguirmos toda a legislação fiscal que as demais empresas desse gênero seguem.

4 – O senhor foi apresentado como novo administrador paroquial da Catedral da Luz. O que é levando em conta para a escolha de um nome para essa função nessa paróquia, especificamente? E quais são as atribuições de um administrador paroquial?

Se leva em conta as necessidades da paróquia naquela circunstância e o perfil do padre. Nem sempre se consegue acertar nessas escolhas, porém, a igreja procura sempre pesar todos os fatores para que no fim das contas aquilo que chamamos de “salus animarum” (a salvação das almas) seja o critério mais importante. O Administrador paroquial deve assumir todas as atribuições do “pároco”, a saber: o zelo pelas almas, o atendimento aos enfermos e idosos, a catequese e formação cristã da comunidade e a administração dos bens temporais que compõem o patrimônio da paróquia.

5 - O que propõe para o período nessa função e como deseja trabalhar?

Nesses primeiros meses desde que cheguei meu trabalho tem sido mais de acompanhamento, identificando as lideranças da comunidade, buscando incentivar aquilo que já está em bom funcionamento e procurando alternativas para aquelas dificuldades que a paróquia e os grupos enfrentam. Por onde passei desde que fui ordenado tenho sempre a intenção de realizar um trabalho colegiado, ouvindo animadores e lideranças da comunidade para saber quais os reais anseios do povo de Deus. Não costumo ser um padre pra mim mesmo ou para os grupos, mas pra o meu povo.

6 – Como estão os preparativos para a chegada do novo Bispo de Guarabira, e como o clero tem se preparado para esse momento?

Como não poderia ser diferente, a posse canônica do nosso Bispo tem consumido muito do nosso tempo já que desejamos realizar um evento bonito. Também pesa o fato de que tudo se dará no dia 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora da Luz, padroeira da Diocese de Guarabira e da nossa cidade. São muitas equipes que estão trabalhando desde o mês de novembro para que tudo ocorra bem. O clero, assim como todo o povo de Deus, tem vivido dias de expectativa e ansiedade pela chegada de Dom Aldemiro, inclusive, uma comitiva de mais de 30 padres e fiéis esteve no ultimo dia 17 de dezembro em Ilhéus-BA para participar da ordenação episcopal do nosso Bispo e representar a nossa diocese. Eu estive nessa comitiva e posso dizer que as impressões são as melhores. O nosso novo bispo tem tudo para ser bem sucedido no seu trabalho aqui na diocese de Guarabira.

7 – Em rápidas palavras: como foi a infância de Kleber Rodrigues - foi um aluno ‘exemplar’ na escola e no seminário?

Minha infância foi uma infância feliz. Sempre fui um garoto muito alegre, a ponto de ser conhecido entre meus colegas de escola como alguém muito brincalhão. Ao mesmo tempo, como sou filho de professora sempre fui cobrado em casa para me dedicar aos estudos, e isso graças a Deus me fez muito bem. Até hoje agradeço muito a todos os meus familiares que me incentivaram a estudar. Hoje nossos jovens infelizmente acreditam que aproveitar as alegrias da adolescência ou juventude significa abandonar os estudos ou não levá-los a sério. Digo pela minha experiência que é possível aproveitar a juventude sem deixar de estudar.

8 – O Pe. Kleber gosta de ler? Se a resposta for sim, cite três autores favoritos e justifique.

Sim. Sempre gostei de boas leituras e o período no seminário me incentivou ainda mais. Quando posso, leio muito o grande teólogo e papa “Bento XVI”, obras do famoso Cardeal Van Thuân e de um sacerdote americano chamado Léo Trese que muito me inspiram, além de biografias da vida do saudoso Papa João Paulo II e do meu livro de cabeceira que é “O pequeno príncipe” de Exupéry. Esse pequeno livro, na minha opinião, é simplesmente fantástico e por isso, sempre que termino a leitura do último capítulo inicio novamente do começo de modo que nunca acabo de ler.

9 – O senhor gosta de música? Se a resposta for sim, que canção o senhor considera marcante em sua vida (pode ser mais de uma se achar necessário citar)? E por que?

Não sei tocar nenhum instrumento e nem mesmo cantar, mas me considero um apaixonado por música. Apaixonado mesmo. Sempre estou ouvindo algo. Escuto quase tudo e nunca me canso disso. Diria que é impossível eleger apenas uma ou algumas músicas marcantes. Algumas canções marcam a nossa fé e por isso ficarão guardadas em nosso coração pra sempre, como é o caso das canções vocacionais do Pe. Zezinho, que todos conhecem bem. Também rezo muito com as canções do Pe. José André, da comunidade Doce Mãe de Deus. Já o conhecido canto gregoriano, bem cantado pelas escolas de Roma, embala muitas noites enquanto dirijo sozinho indo pra casa visitar minha mãe. Afora estes, também já ouvi muito o “Poprock” dos Paralamas, da Legião Urbana e do Tim Maia, a MPB de Toquinho, Tom Jobim, Milton, Djavan, Maria Bethânia, Chico Buarque e Marisa Monte, a Bossa Nova de João Gilberto e as famosas canções do rei Roberto Carlos. Ouço também um pouco da velha guarda com Nubia Lafayete, Trio Irakitan, Nelson, Bing Crosby, Elvis, Ella Fitzgerald, Mercedes Sosa, A-ha, Scorpions, Alphaville, e da “jovem guarda” com ColdPlay, U2 e Bon Jovi. Às vezes, pra descansar também me ocupo um pouco do tradicional forró “pé de serra” de Santana, Flavio José ou Dominguinhos. Semanalmente costumo ouvir as musicas clássicas compostas por Bach, Beethoven, Mozart e Chopin enquanto trabalho ou escrevo algo. Também escuto com frequência Andrea Bocelli. Enfim, é quase impossível resumir algo que te faz tão bem, que é parte de sua vida.

 10 – O senhor gosta de futebol - torce para algum time?

Já gostei bastante quando adolescente. Hoje tenho pouco tempo pra isso. Torço pelo “sempre altaneiro, Corinthians, grande!”

11 – A Bíblia: o que ela representa para a Igreja Católica Romana e para o Pe. Kleber?

A Sagrada Escritura é base de sustentação de toda a nossa fé cristã, onde podemos “tocar” cada gesto de Jesus. Ela é a fonte única da nossa fé. É inegável que muitos católicos ainda não conseguiram aproveitar da riqueza que é a Palavra de Deus, entretanto nós pregadores também temos que assumir parte deste “mea culpa” já que não suscitamos nos nossos ouvintes o desejo de beber dessa fonte. Desde que cursei Teologia, a Bíblia se tornou para mim mais do que um livro. Escolhi a Sagrada Escritura como tema do meu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC). Dissertei sobre os salmos e desenvolvi meu texto especialmente sobre o salmo 118 (117). Para isso tive que ralar muito. Muita leitura até mesmo em outros idiomas. O meu orientador foi um importante estudioso do tema no Brasil, Pe. Fernando Cardoso, porém o mais importante foi que isso me ajudou a conhecer e amar mais ainda a Bíblia. Hoje ela é parte do meu dia a dia. Mesmo quando cansado procuro lê-la todos os dias nas minhas orações antes de dormir e também no início do dia.

12 – Como tem avaliado o Papado de Francisco?

O Papa Francisco é diferente de todos os papas que vimos até hoje. E isso para mim é fantástico. Através dele o ministério petrino se torna dinâmico e autêntico naquilo que Cristo desejou para seus discípulos. Podemos dizer que este século será marcado por este pontificado e que em algumas décadas lembraremos deste Papa como o Papa dos grandes gestos. Amo e rezo pelo meu Papa, afinal, é meu pai na fé, parte da minha família.

13 – O senhor se considera um padre mais conservador ou da ala ‘mais liberal’ da Igreja?

Me considero um padre da ala central...(risos). Sou avesso a extremos de todos os tipos e inspirado no amor de Cristo pela igreja e pelo seu povo. Busco ser um “padre da Igreja”, e não de alas. Se necessário, inspirado em I Cor 9,22 sou capaz até de ser conservador e liberal ao mesmo tempo desde que isso seja para a salvação do meu povo.

14 – O senhor responde se quiser: se o celibato não fosse uma regra atual para ordenação de padres pela Igreja, o senhor continuaria optando pelo celibato ou exerceria o sacerdócio, casado? Comente sua resposta.

Sim, continuaria optando pelo celibato. Sou feliz como celibatário. Sei de outros que não são. No meu caso, nunca sonhei em viver a vida matrimonial. Para mim o celibato não é um fardo. Repito: sou muito feliz no estado em que estou.

15 – O que o senhor pensa sobre família – da família tradicional, conforme as Escrituras; e do novo modelo proposto à sociedade? 

Vivemos em um mundo de muitas falsas culturas. A rapidez com que acontecem as mudanças nos torna uma sociedade do descartável, e com isso corremos o risco de fazer também do ambiente familiar algo descartável. Deus, quando nos criou, tinham projetos de nos inserir em uma família e, por isso, sou defensor daquela família sonhada por Deus desde a criação. Entretanto, muitos inocentes são vitimas da propaganda ideologizada da cultura atual e sem perceber se deixam influenciar. E isso sem contar outros inúmeros casos que vivem crises pessoais de identidade. Desse modo, penso que é necessário defendermos a “família tradicional” sonhada por Deus, mas não podemos condenar os que foram induzidos ou optaram por outros caminhos.

16 – Política: como o senhor tem avaliado a situação do Brasil, e como a Igreja pode contribuir para um país melhor?

O Brasil se encontra em uma situação política extrema que nos causa medo e vergonha. Até hoje ainda não sabemos onde todos esses escândalos de desvio de dinheiro e irregularidades vão parar, Mas acredito sim que a igreja e cada cristão podem contribuir para a mudança do nosso país. Se cada um se esforçar por fazer aquilo que é certo, sendo justo com o que não lhe pertence, se os que ingressarem hoje na política se comprometerem em agir com honestidade e espírito público, se educarmos nossas crianças a fazerem aquilo que é certo em qualquer situação, com certeza estaremos contribuindo para construir um país melhor.

17 – Como é a sua relação com outras religiões e denominações cristãs?

Acredito que minha relação com outras religiões é a mesma relação que tenho com os da minha religião. Me explico: Respeito e amo cada pessoa humana criada à imagem de Deus, independentemente de credo. Estando na minha igreja ou não você é um filho amado de Deus, e eu como sacerdote me sinto na responsabilidade de amá-lo da mesma maneira que Cristo amaria. Desde a minha juventude tenho muitos amigos evangélicos e isso nunca foi um empecilho.

18 – Estamos no período natalino. O que é o Natal à luz da Bíblia?

Embora o mundo conheça o Natal como uma festa consumista, a ideia de celebrar o Natal não era fixar no calendário uma data de aniversário pra Jesus, posto que é quase impossível precisarmos em que dia exatamente ele nasceu, mas se buscava com este dia parar por um instante e contemplar a grandeza de um Deus que se fez pequeno, humilde e pobre, contrariando todas as expectativas. Conforme Lucas 2, 1-14, diferente do imperador Romano César Augusto, que se auto denominava “restaurador do mundo” e “príncipe da paz”, que reinava sob um império imenso, possuindo palácios e exércitos, o filho amado de Deus, mesmo sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, entrou no mundo silenciosamente e foi capaz de mudá-lo pra sempre. Para mim, o natal à luz da Palavra de Deus é a recordação de uma das maiores “loucuras de amor” que Deus fez para nos salvar.

19 – O que espera de 2018?

Espero ler e estudar mais em 2018, me organizar melhor nos meus trabalhos pastorais e continuar exercendo meu ministério tão realizado como estou hoje.

20 – Festa da Luz: há alguma novidade que o senhor possa adiantar sobre a festa religiosa do próximo ano?

Acredito que a maior novidade que posso adiantar da Festa da Luz 2018 é que no dia 02 de fevereiro o povo de Guarabira vai se surpreender com a personalidade acolhedora do nosso bispo. Posso adiantar que acredito que ele irá conquistar o coração do povo de Guarabira nos primeiros dias.

   Suas considerações finais: o blog agradece pela atenção, e deseja sucesso no seu ministério.

Agradeço de coração a você Ikeda pela bondade de abrir este espaço para dialogarmos. Muito obrigado mesmo. Às vezes até me envergonho de repetir tantas vezes que sou seu fã, e digo isso com toda sinceridade. Admiro seu trabalho e às vezes até tenho a impressão que temos algumas coisas em comum. Estarei sempre à sua disposição.
Desejo boa sorte no seu trabalho ao longo de 2018 e que Deus esteja sempre ao seu lado. 

Do amigo e fã,

Pe. Kleber Rodrigues
“Servus inutilis sumus” (Lc 17,10)

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