Previsões para o jornalismo em 2018: livrando-se da tirania dos barulhentos

Por  Lam Thuy Vo * O que chega nas  timelines  de nossas redes sociais pode fazer aparentar que o mundo é 1 lugar dividido, em que ...


Por Lam Thuy Vo*

O que chega nas timelines de nossas redes sociais pode fazer aparentar que o mundo é 1 lugar dividido, em que as pessoas só exclamam e gritam alto –para apontar o dedo a quem discordam ou apoiar a quem se identificam. Isso ultrapassa filiação política, ideologia ou crenças religiosas.

Mas o que vemos on-line provavelmente não é boa representação daqueles que realmente constituem nossos networks virtuais –para falar a verdade, não chega nem perto.

Abaixo, está um GIF de 2 livestreams feitos pelo Facebook de uma coletiva de imprensa de Donald Trump, os quais nós gravamos e analisamos para o BuzzFeed News –um foi ao ar pela página da Fox News no Facebook e outro pela da Fusion. A imagem pode fazer parecer que o mundo é um lugar só de fãs de Trump ou de críticos violentos.

Mas uma rápida olhada nas visualizações gerais é suficiente para mostrar que as reações que flutuam nas telas durantes estes livestreams só representam uma fração –meramente 2-3 %– daqueles que assistem.

Outros 97% escolheram não reagir. Talvez eles tenham ficado em dúvida sobre o conteúdo a que assistiram. Talvez não o valorizaram o suficiente para reagir. 

Talvez eles quisessem pensar mais 1 pouco sobre as palavras do presidente antes de expressar quaisquer sentimentos sobre. Nós não sabemos o que eles podem ter sentido, pois é algo que não podemos medir dentro dos parâmetros oferecidos por 6 simples botões e uma caixa de comentários.

O que está sendo medido é a graça, a raiva, o apoio e a tristeza dos barulhentos, aqueles que sentiram uma enorme necessidade de se pronunciar. 

A rede social é otimizada para capturar o engajamento extremo das pessoas, o que é mensurável através de nossos cliques, desabafos e reações emocionais on-line. E é o engajamento delas que servirá de alimento a algoritmos que decidirão o tipo de informação que veremos nas nossas timelines. Não a inação –pensativa ou indiferente– daqueles que não sentiram necessidade de expressar suas opiniões sobre o livestream.

Isso é chamado de tirania dos barulhentos.

Além disso, na internet, visibilidade só cria mais visibilidade. A popularidade de um artigo não aumenta linearmente com o passar do tempo, ela explode exponencialmente. E neste ambiente caracterizado pela divisão de informações cada vez maior, agentes de notícias são obrigados a competir com quem faz barulho.

Mas como jornalistas podem reintroduzir o público à nuance? Como é que repórteres podem fazer fatos naturalmente complicados competir com aquela política de identificação genérica? Como alguém lidera uma revolução contra esses tiranos barulhentos?

O ano de 2018 tem de ser o ano em que jornalistas descubram como. Talvez seja encontrando meios de se infiltrar nas timelines das pessoas e as convencerem a não simplesmente gritar. Talvez seja por meio de suspense; talvez seja com pequenos relatos das histórias em plataformas sociais; talvez seja pelo visual. Talvez seja pela resolução do problema com quem otimizou a rede social para extremos de emoção.

Qualquer que seja a solução, jornalistas terão de reconquistar o acesso à atenção das pessoas sem transformar seu conteúdo em clickbait (iscas para cliques).

Seria bom trazer de volta à troca de informação pública 1 tom mais quieto e sensato.

*Lam Thuy Vo é repórter de dados no BuzzFeed News, e escreveu o texto “Breaking Free from the Tyranny of the Loudest” para o projeto de final de ano Predicting for Journalism 2018, organizado pelo Nieman Lab. Leia aqui o texto original.
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O texto foi traduzido por Carolina Reis do Nascimento.
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#SintoniaFina

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