Em editoriais, imprensa internacional defende Lava-Jato

O ex-presidente Lula em comício no Circo Voador, 02/04/2018  - Mauro Pimentel / AFP Por Daniel Salgado, O Globo Alguns dos principa...

O ex-presidente Lula em comício no Circo Voador, 02/04/2018 - Mauro Pimentel / AFP

Por Daniel Salgado, O Globo

Alguns dos principais jornais da imprensa internacional publicaram nos últimos dias editoriais, que são textos com a opinião da publicação, sobre a prisão do ex-presidente Lula. O tom dos editoriais é de apoio à Lava-Jato, de apelo pela continuidade do combate à corrupção e de preocupação com a estabilidade política do Brasil.

O "New York Times" definiu a situação atual do Brasil como um "teste para a democracia" e destacou que figuras como o "corajoso" juiz Sergio Moro "mostram que o Brasil tem as instituições e meios necessários para encarar até os mais poderosos - e populares - malfeitores". Em seu editorial, o jornal nova-iorquino afirmou que a Lava-Jato foi um "duro golpe contra a corrupção no maior país da América do Sul", mas que teria "desestabilizado o sistema político do país, ajudado a empurrar a economia para uma recessão e deixado milhares desempregados".

O "Times" argumenta que, apesar dos avanços com a corrupção no Legislativo e Executivo, "nada havia sido feito para consertar o Judiciário". Para o diário, os brasileiros devem eleger um líder que "garanta que os ganhos contra a corrupção não sejam um revés para a democracia", e acrescenta que "a maneira como o Brasil lida com essa crise será observada de perto por nações sofrendo com corrupção enraizada".

"Le Monde", principal jornal francês, publicou um editorial no dia 7 de abril. Intitulado "a desgraça de um presidente". O texto fala em como é "grande a tentação de associar o destino de Lula ao do Brasil", comparando a "opulência e decadência" do país nos últimos anos com a trajetória do petista.

Para os franceses, a prisão de Lula mostra que ele "não está acima da lei" e "não é um ato político". Segundo o jornal, a Lava-Jato deve continuar o combate contra a corrupção. A publicação reforça, porém, que a "corrupção é a causa maior" dos problemas brasileiros e que é missão da operação é mostrar que se trata de uma questão sistêmica.

Outro jornal americano, o "Washington Post" comentou indiretamente a prisão na última quarta-feira. Em um editorial chamado de "Trump não poderia ter escolhido um momento pior para virar as costas para a América Latina", onde se discute a decisão do presidente americano de não visitar o continente na Cúpula das Américas, o "Post" deu sua visão sobre o encarceramento do petista.

O jornal fala da profunda divisão política no Brasil, com "ambos os lados tendo seu mérito". O "Post" reforça as acusações contra Lula e o fato de que mais de "120 pessoas foram presas na Lava-Jato". Mas demonstra receio quanto à possibilidade de a prisão "beneficiar o populista de direita Jair Bolsonaro, que escandalizou o establishment político com uma retórica ofensiva e elogios aos líderes militares do passado". E conclui que "Bolsonaro é rotineiramente comparado a Donald Trump, mas sua eleição dificilmente melhoraria a fria relação entre os dois países".

ARTICULISTAS E REPORTAGENS

A prisão de Lula também foi abordada em reportagens, textos que não contêm opinião e são mais objetivos, e em artigos de colaboradores, que refletem a posição dos autores e não a das publicações.

Em reportagens, o "New York Times "considerou "explosiva" a condenação do petista em um país "ainda profundamente dividido quanto ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff". E destacou o episódio do tweet do General Villas Bôas como um exemplo dessa divisão: para uns, o comentário seria "pressão inapropriada, na melhor das hipóteses, e uma ameaça velada de intervenção militar na pior", para outros, um "motivo de comemoração". O jornal também apontou a ironia de que Lula passava seus dias preso em uma cadeia que ele mesmo inaugurou.

Um de seus articulistas, o economista Mark Weisbrot, publicou, em janeiro, um artigo de opinião em que critica o judiciário brasileiro e a condenação, então iminente, do ex-presidente. Para Weisbrot, "não havia pretensões de que a corte (do TRF-4) seria imparcial". O colaborador do New York Times disse ainda que Sérgio Moro teria "demonstrado suas visões políticas repetidas vezes". Para o economista, uma "eleição em que o judiciário pode excluir um líder popular" seria uma "calamidade para os brasileiros, a região e o mundo".

O "Le Monde" fez um perfil de Moro (" O juiz anti-corrupção que faz tremer o Brasil"), e uma matéria sobre o PT ("O Partido dos Trabalhadores órfão de seus heróis"), onde ressaltou que a "atenção deve ser dada igualmente aos políticos do centro e da direita acusados de corrupção".

O jornal alemão "Die Welt", o britânico "The Guardian" e o espanhol "El País" (que tem uma edição brasileira) também abordaram a prisão de Lula em reportagens, análises e textos de opinião de colunistas.

O "El País" trouxe uma mistura de abordagens se comparado aos demais jornais: além da cobertura sobre os acontecimentos da última semana e algumas análises, o jornal entrevistou lideranças da América Latina e da Espanha e tentou contextualizar a questão para a comunidade hispânica.

À publicação, o ex-presidente espanhol Felipe González e o ex-presidente equatoriano Rafael Correa criticaram a prisão do petista. "A ausência de Lula é um problema para a democracia", comentou o espanhol. Para o equatoriano, "as provas contra Lula são insuficientes".

O britânico "The Guardian" apostou em apresentar posições opostas à prisão em sua seção de cartas. Para além de sua cobertura factual, o jornal compartilhou uma carta assinada por membros do Parlamento britânico que defendiam que Lula deveria concorrer às eleições e "caberia ao povo brasileiro decidir o seu futuro".

De outro lado, também foi publicada a opinião de Richard Bourne, britânico que escreveu uma biografia do ex-presidente Lula, que viu na prisão um "choque de realidade para os petistas", que deveriam "se organizar e entender que a esquerda não poderia depender de apenas um homem". Para o acadêmico, os "modelos que funcionaram para a esquerda nos primeiros anos do século são hoje inadequados", e a "ameaça do retorno de um passado reacionário é preocupante".

O "Welt", por sua vez, publicou no último domingo uma análise da jornalista Hildegard Stausberg, especializada na cobertura da América Latina. Ela levanta a questão de "para onde o Brasil vai após a grande limpeza?". E destaca o Judiciário brasileiro, que teria demonstrado "robustez" como não vista em nenhum outro país da região.

A jornalista também mergulha em diversos aspectos da conformação política e social do Brasil (de questões religiosas à profunda corrupção que perpassa o país) para contextualizar a prisão de Lula e o seu peso simbólico. Stausberg, assim como o "Post", comenta o crescimento de Bolsonaro e considera de "decisiva" importância o surgimento de algum candidato ao centro capaz de vencer o deputado nas eleições presidenciais.

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#Política #SintoniaFina

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