Dora Kramer: O crepúsculo do macho

Marina Silva (REDE), candidata à Presidência da República, durante debate realizado pela RedeTV! - 17/08/2018 (Nelson Almeida/AFP) Blog...

Marina Silva (REDE), candidata à Presidência da República, durante debate realizado pela RedeTV! - 17/08/2018 (Nelson Almeida/AFP)
Blog da Dora Kramer, Veja.com
Marina Silva desmentiu o Barão de Itararé, mostrando que às vezes vale mesmo o velho ditado: de onde menos se espera é que saem as grandes surpresas. Deu dois diretos no queixo de Jair Bolsonaro, deixou o bruto desconcertado e produziu o único embate digno do nome no debate da Rede TV.
No primeiro movimento, passou-lhe uma descompostura em regra sobre a indiferença dele à desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho; no segundo, o chamou às falas no tocante à incitação à violência e a vocação para “resolver as coisas no grito”. Fez isso sem gritar, sustentada exclusivamente na assertividade de conteúdo.
Ficou péssimo para Bolsonaro, mas ficou também muito ruim para os outros seis candidatos. Notadamente para aqueles donos de índices mais significativos nas pesquisas como Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. Ciro no afã de se mostrar um fidalgo, repetiu as gentilezas do debate a Band e Alckmin recolheu-se à tática de ignorar o personagem.
Pois Marina saiu de sua “fadice” e fez como o perplexo da piada que cobra do público no restaurante que pare de fingir não ver o homem vestido de escafandro no meio do salão. Esse tipo de desdém estudado deixou Fernando Collor correr solto campanha adentro em 1989 e cimentou a construção do Lula intocável fosse quais fossem as barbaridades que dissesse ou fizesse o petista na Presidência e fora dela.
Bem melhor em termos de dinâmica de palco, à exceção daquele momento, o debate da Rede TV no entanto repetiu o ocorrido no encontro anterior: todos fugindo do embate, lançando as perguntas ao oponente e, na hora de replicar, treplicar ou comentar, usando o tempo para monologar a respeito de si. Com isso, comportaram-se como ilhas e, isolados na companhia dos respectivos umbigos produziram um farto elogio à monotonia.
Talvez Marina não tenha ganhado votos, ao menos não em quantidade suficiente para elevá-la ao patamar primeiro da competição; Bolsonaro quase certamente não perdeu nada junto ao seu eleitorado fiel. Mas ao menos o sacode da fadinha no brucutu serviu para balançar o coreto da bancada de homens mais preocupados em posar de moços bons do que em combater o fantasma do mal maior que ronda o Brasil.
Façamos votos de que a lição de Marina tenha feito escola.
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#Política #Eleições2018

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