Por IKEDA
Comentar sobre política nas praças é uma prática comum, principalmente nas cidades do interior. Tratar do assunto no rádio não é fácil. E na televisão, então, é mais difícil ainda, avalio. É uma tarefa desafiadora, sobretudo num país dividido e polarizado politicamente, como o Brasil de Lula e Bolsonaro. O comunicador Luiz Otávio, que foi âncora do Correio Debate, da 98 FM, costumava dizer em seus programas de rádio que o que o ‘lascava ele era a sua memória’. Ele afirmava isso quando comentava sobre política, considerando o passado e o presente de figuras públicas; e sobre a dicotomia entre discurso e prática. De seu tempo para cá, muita coisa mudou, eu sei… Porém, uma permanece sendo indispensável ao cidadão: ter memória.
Ódio e polarização são distintos. Dois problemas. Tanto um quanto o outro pode provocar divisão. Eu acredito que os políticos sabem disso. E quando promovem divisão, o fazem com um propósito, não por acaso. Nesse contexto entre Lula e Bolsonaro, eu penso que esse apelo pela divisão do país começou no governo petista – talvez, na tentativa de enfraquecer os adversários. Em um artigo publicado em 2016, com o titulo “a quem interessou dividir o país”, o jornalista Ricardo Noblat pontuou que a ex-presidente Dilma acusou a oposição de querer dividir o Brasil. Segundo a mandatária, essa divisão criaria um problema sistemático na política e na economia.
A petista estava certa. Hoje temos um problema sistemático. Para Noblat, apesar do discurso acusando a oposição, Dilma sabia que foram Lula e o PT que começaram a dividir o país desde que chegaram ao poder em 2003. Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo tratavam disso na época. E quem acompanha politica e tem memória sabe. “O discurso do “nós” contra “eles” tem a digital de Lula e do PT. E a digital da própria Dilma”, observou Noblat. Eu acrescento que o PT, mesmo afundado em corrupção na época, não tinha adversário à altura até ‘emergir’, com apoio da mídia, o tal Bolsonaro, de atuação medíocre no parlamento, mas que soube aproveitar um momento de rejeição ao PT, para falar aos que buscavam uma opção diferente.
Como já escrevi no pós-eleição de 22, “o criador venceu a criatura” – máxima para quem acredita, como eu, que o bolsonarismo nasceu do antipetismo. Em entrevista em 2018, Bolsonaro disse: “se eu errar, o PT volta”. Foi o que aconteceu. Bolsonaro errou feio. E após 13 anos, o Lula volta ao poder para conduzir o país tendo vários desafios – políticos e econômicos. Em seu primeiro discurso, ele disse que o Brasil precisa de união e pacificação. Entretanto, Lula e o PT terão de desfazer o que fizeram quando dividiram o país. Intenção existe, mas, na prática, pelo menos nesses primeiros meses de governo, o Lula ‘paz e amor’ da campanha, parece que deu lugar ao verdadeiro – um Lula vingativo, como analisou Felipe Moura Brasil em suas colunas.
Por um momento, penso eu, que o lulopetismo desdenhou do bolsonarismo. A ‘esquerda’, talvez, não imaginasse que seria tão difícil enfrentar a ‘direita’ nas urnas e vencê-la, democraticamente. O país está dividido – as urnas mostraram isso. Observe que a diferença pró-Lula foi de pouco mais de dois milhões de votos. A campanha passou, mas a disputa, pelo visto, infelizmente, vai continuar entre lulismo e bolsonarismo. E se Política e disputa eleitoral são coisas distintas, eles têm deixado a Política de lado e focado na disputa – um jogo cujo tabuleiro é o Brasil, os bispos representam a Igreja; as torres têm a ver com os poderes, os cavalos se parecem com os partidos; e rainha e rei são os candidatos que tratam eleitores como peões.
Como relata Fabio Batista em seu texto, o Brasil é composto por vários grupos regionais e sociais que têm seus interesses… Ele pontua também que desde o início de sua história, o país esteve dividido entre os que defendem o status quo e os que defendem mudanças. E essa divisão ficou ainda mais evidente durante o governo Bolsonaro. Foi nesse período que os que pensam mais à direita expuseram seus pontos de vista e defenderam seu modelo de país. Aprovando ou contrariando, é fato que o bolsonarismo trouxe consigo uma visão de mundo diferente, que embora represente uma parte da sociedade, não era tão evidente: o direito de dizer o que pensa, inclusive sobre democracia. O Brasil mudou e penso que esse é um caminho sem volta.
O lulismo terá que conviver com o bolsonarismo, pelo menos até que apareça uma terceira via ou uma liderança que atraia o foco, que até então está entre Lula e Bolsonaro. O Lula, inclusive, erra ao citar de forma sistemática o nome de seu principal opositor – aquele que só foi derrotado graças a uma frente partidária e a própria imprensa: sem essa união de forças, dificilmente o ex-presidente teria perdido a eleição, avalio. A polarização continua. Tem gerado violência, crises e o afastamento das pessoas. E um país dividido não vai para frente. Temos um novo governo que repete e mantem práticas do governo anterior, como sigilos, questões de transparência, incoerência no discurso e o ‘orçamento secreto’ que mudou de nome, por exemplo.
Eu tenho amigos que defendem o Lula e outros que defendem Bolsonaro. Também conheço lulistas e bolsonaristas declarados. Porém, nem todo mundo que vota no Lula é lulista ou petista, assim também com Bolsonaro. Ao conversar com os que fazem oposição ao Governo, eles me dizem que não dá para ter diálogo com quem ‘passa pano’ em questões que antes eram criticadas pelo Lula e agora não são mais por atenderem interesses do governo. Já quem defende a situação, me fala que o presidente ainda não conseguiu ‘colocar a casa em ordem em 100 dias, mas está tentando usando vários meios. Eu não desfiz amizades e tenho minhas impressões: não votei no Bolsonaro e muito menos no Lula, que demonstra não ter aprendido nada com o passado.
Apesar dos fatos ocorridos e noticiados, o PT tenta reescrever a história do seu jeito, negando o triste legado que o partido deixou nos últimos anos. Em entrevista recente, o José Dirceu negou ter havido o ‘mensalão’. É tão negacionista quanto Bolsonaro. O Lula, por exemplo, como publicou recentemente a agência de checagem “Aos Fatos”, em cem dias, gerou desinformação ao falar sobre economia e legado do ex-presidente Bolsonaro. Quem é sensato, tem memória e acompanha a política, não aprova um governo que mente – independente de quem esteja no poder. E o atual, já costumava fazer campanha baseada em mentiras, como fora retratado na capa da Isto É, em outubro de 2014.
Não há outro caminho que possa, novamente, unificar a nação a não ser por meio do diálogo franco e sincero. E é a partir dele que poderá haver respeito, união e tolerância com quem pensa diferente. “Não dá para torcer contra o Brasil – quem tem compromisso e responsabilidade não age assim”, foi o que escreveu a mulher de um professor amigo meu, numa rede social. Ela tem razão. Ocorre que, quando Bolsonaro foi eleito, ela expressou publicamente na internet que a partir daquele momento iria torcer contra o governo – para dar errado. E deu! Agora, no entanto, como eleitora declarada do Lula, ela pensa diferente. Com isso, como tantos outros, ela demonstra ser o tipo de gente que não terá muita influência no processo de pacificação do país, que já está partindo para uma polarização tóxica.
*Recorte de uma análise política, como uma das atividades do Curso de Jornalismo Político, pela ELEGIS, em junho de 2023