CINEMA: LOCOMOTIVA DOS SONHOS

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Por Percinaldo Toscano, professor e cronista

As lembranças da minha infância que ainda consigo guardar, muito se devem pela forma como se deu a convivência, entre mim e meu pai, um processo educativo pautado no diálogo que me proporcionou aprender a enfrentar as pedras do caminho. Sendo ele um servidor público disciplinado e bem humorado, participativo nas coisas que flui energia humana, desprovido das vaidades e coisas inúteis, sempre viveu poeticamente, rindo, contando causos e piadas do seu próprio cotidiano, estilo de viver este que me contagiou. Assim como ele, gosto de circo, música instrumental, causos, histórias familiares, cinema e futebol, sendo este último sua grande paixão.

Por isto e algo mais, resolvi então, na oportunidade, escrever sobre memórias do período infanto-juvenil, vividos nos anos 70 até final da década de 80, tendo como foco o cinema, que foi para minha geração, a linguagem capaz de aflorar novos caminhos, até antes, inimagináveis.

Revendo e foleando as páginas frágeis da memória, ainda não amareladas pelo malévolo passar das horas, me deparo com lembranças indeléveis dos cinemas de minha Rainha do Brejo, dos meus verdes e flóreos anos compartilhados com amigos e amigas de escola e da vizinhança. No filme de minha memória, me coloco entrando ao Cine São Luiz, fundado aqui por volta de 1950, na praça João Pessoa, pelo empreendedor Antônio de Freitas Albuquerque, passando depois para as mãos do Sr. Antônio Lucena e finalmente ao Sr. Ulisses Estanislau de Lucena. Recordo-me da grande sala cinematográfica composta por uma gigantesca tela de exibições, onde através de “Tempos Modernos”, com olhos vidrados na projeção e nas mãos um saquinho contendo bombons, drops e amendoim, assisti minha primeira sessão de cinema, tendo como protagonista o genial Carlitos, denunciando as asperezas do mundo capitalista e o novo processo de industrialização na década de 30. Filme em preto e branco, sem som, mas absorto pela pantomima e lirismo cômico de suas cenas hilariantes.

Ali, a duas quadras do Cine São Luiz, precisamente na Praça Antônio Guedes, a 300m da estação do trem, minha geração também assistira e frequentara o Cine São José, (hoje Teatro Municipal), carinhosamente identificado como cinema de Benedito Targino e Jaime Cardoso, para presenciar grandes e emblemáticas exibições como “Dio, come ti amo”, uma produção italiana do ano de 1966, um romance musical que tinha como protagonista a linda Gigliola Sinquetti. Quem não lembra de Non ho l’eta?!

Me permitam, caros leitores, a falar sobre o nosso cinema, que aqui chegou pela vontade e ação do Sr. Sindô Trigueiro em 1912, instalando em sala permanente o Cine Independência, anos depois alugado a Zezinho de Gila que o denominou de Cine João Pessoa e posteriormente Cine Guarani (anos 30). Foram apenas dezessete anos, entre o ideário dos irmãos Lumière em Paris, até a instalação do nosso primeiro cinema em Guarabira (1895/1912). Como tudo foi rápido!

Retornando às memórias cinestésicas de minha geração, é pertinente dizer que além das exibições em preto e branco e posteriormente coloridas em tela cheia, um outro filme de comportamentos, gestos e relacionamento social, acontecia nas portas dos cinemas antes das exibições. Das filas para compra dos ingressos, venda e troca de gibis, que dentre estes me recordo de Tarzan, Zorro e Durango Kid como nossos ídolos invencíveis, e não menos importantes estavam Michey, Pato Donald e Zé Carioca, este último narrando as espertezas dos malandros cariocas.

Apreensivo aguardava o domingo que se tornava em um dia de muita felicidade. Vestir-se bem, estar perfumado, trocar os gibis e conquistar a garota da escola, com o saco cheio de bombons, pirulitos e pipoca fazia parte do cenário dos domingos. Parecia nunca terminar as imagens de nossas fantasias, sonhos e perspectivas inatingíveis.

A felicidade entrava sorrateira em nossas vidas. Como não se encantar com as comédias ingênuas de os “Três Patetas”, de “O Gordo e o Magro” e as críticas sociais de Mazzaropi, simbolizando a vida dos caipiras paulistas, abandonados pelos poderes públicos.

Aqui, onde o imigrante Costa Beiriz veio agasalhar-se, o cinema não serviu somente para as grandes exibições, como Inferno na Torre, Tubarão, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bem-Hur, Pixote, 007, os faroestes (americanos/italianos) , Paixão de Cristo (na semana santa), Dr. Jivago, Marcelino Pão e Vinho, A Ponte do Rio Kwai e tantas outras, mas também realizou, pela vontade e iniciativa de Benedito Targino da Costa, no palco do Cine São José, grandes shows musicais, apresentando Teixeirinha, Reginaldo Rossi, José Ribeiro, Núbia Lafaetty, Waldick Soriano, além de outros grandes nomes da música brasileira.

Assim como no Canal 100 de Carlos Niemeyer, onde era exibido grandes momentos do futebol brasileiro, aqui deixo o reconhecimento aos craques que edificaram a história do cinema em Guarabira, como Sindô Trigueiro, Zezinho de Gila, Antônio de Freitas, Benedito Targino, Zé de Biu, Antônio Lucena, Benedito Lucena, Expedito Paulo, Cassimiro Andrade, Severino Alves ( Seu China ) e Zezinho Marceneiro – porteiros -, Zé Andrade e José Jorge , ambos projecionistas. Na verdade, foram todos atores principais e coadjuvantes de nossa mais importante película em longa-metragem. #Opinião #Crônica

 

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