Por IKEDA
Na teledramaturgia, por exemplo, quando ocorre uma prisão, geralmente a autoridade policial adverte que o detento tem o direito de permanecer calado e tudo o que ele disser poderá ser usado contra ele. E isso tem amparo na Legislação brasileira. Em um país polarizado como o Brasil, dividido politicamente, quem ocupa alguns cargos e funções deve se policiar e estar atento, sobretudo, em relação a posicionamentos políticos para evitar reações. Quem faz jornalismo, rádio e televisão entra nesse “pacote”, avalio.
Eu não acredito em imparcialidade, adianto. Ser imparcial, para mim, é tratar o fato com isenção. O que vem depois é opinião, que sempre carrega consigo uma visão de mundo. E quando a opinião em questão é político/partidária, a atenção em relação ao que você diz deve ser redobrada, principalmente se você está inserido numa redação ou emissoras de rádio e tevê, que, pela cobertura, falam com a milhares de pessoas ao mesmo tempo, ampliando o alcance pelos canais digitais bastante usados pela audiência.
Portanto, o que você falar como comunicador, também “poderá ser usado contra você”. Assim como alguém deixa de comprar Havaianas por causa de um comercial “tendencioso” ou de ser cliente da Havan, por exemplo, pela “tendência política” do dono; pessoas deixam de ouvir/assistir um programa pela forma como o apresentador opina, sem ‘ampliar o recorte’ e considerar contextos, por exemplo; ignorando quem pensa diferente; sem garantir, pelo menos, argumentos convincentes com base em fatos.
Não estou sendo contra a liberdade de opinião – eu mesmo faço uso dessa liberdade para expressar minhas opiniões (!). Estou, apenas, chamando atenção para a forma e o tom como se dá opinião, para que ela seja minimamente ouvida, aceita ou respeitada, mesmo ciente de que alguém poderá discordar parcial ou completamente do que foi dito – e isso acontece com frequência e faz parte do processo democrático. Pode haver, no entanto, consequências específicas para quem opina e trabalha em veículos de imprensa.
Quando a opinião é dada sem fundamento ou a “militância” fala mais alto, a queda nos números da audiência aferida pelo Ibope, por exemplo, pode ser uma consequência. Eu conheço gente que ouvia um programa de rádio e que parou de ouvir pelo posicionamento político de um âncora, cuja defesa exacerbada de um líder, ignorava, quase que completamente seu “passado de corrupção”. Não bastasse a mudança de prefixo pela “associação política”, o cidadão também deixou de assistir ao programa televisivo do mesmo apresentador.
Por outro lado, também conversei com pessoas que mudaram de prefixo/estação pelo “fanatismo político” de um jornalista em prol de outra liderança. O que havia em comum entre os dois apresentadores de veículos distintos? A incapacidade de questionar e fazer uma leitura factual e contextualizada sobre política, reconhecendo erros e acertos – o tipo de leitura que a gente só faz deixando o extremismo, lendo as notícias e não permitindo que elas caiam no esquecimento, algo desafiador para o Jornalismo contemporâneo.
Numa conversa rápida com dois colegas, um deles me mostrou a queda de audiência em alguns horários numa emissora de televisão, inclusive nos números do primeiro apresentador sobre o qual me refiro no meu texto. Eu olhei para ele e, embora não trabalhe com análises ou aferição de audiência, o provoquei e o fiz ver que, talvez, a postura do colaborador no rádio, onde faz participações, esteja refletindo na televisão, pelo fato de o associarem a um militante político.
Meu colega olhou para mim, achou razoável e disse que não tinha pensado nisso… Ao fazê-lo pensar sobre essa possibilidade, eu afirmei que o povo ainda tem memória e, por enquanto, a internet está aí com tudo gravado para fazer as pessoas lembrarem do que foi dito ou feito, sobretudo pela classe política. Não tenho dúvidas: o povo nota quando um comentário está completamente enviesado por ideologia, não por fatos. Assim, não vale a pena insistir em narrativas inconsistentes, é arriscado demais…
Hoje em dia, a gente recebe tanta informação que nem dá tempo de processar a primeira, tudo muito rápido e raso. Sem falar nas narrativas e na desinformação compartilhada que ainda desafia o Jornalismo profissional, que, também, tem sido questionado pela postura de uma “militância” presente em redações que, “em nome da democracia” e muitas vezes sem questionar, faz propaganda e dá voz a “narrativas oficiais”. A política passa, mas “audiência é permanente”. Faça por onde mantê-la.
Aproveito e convido você para ler as colunas anteriores
https://lenilsonballa.com.br/categoria/colunas/ikeda-gomes/