Direto da redação
Um dos casarões mais expressivos da memória arquitetônica de Guarabira (PB), um dos poucos que ainda restam, está prestes a desaparecer. O casarão localizado na Rua Prefeito Manoel Lordão, construído no século XIX como residência do chefe da estação ferroviária da cidade, foi notificado judicialmente com prazo para ser demolido se não houver intervenção dos proprietários ou do poder público, segundo uma das herdeiras relatou a Daniel Fernandes, da página Belezas de Guarabira.
Segundo apuração do Blog do Ikeda, em setembro do ano passado a Prefeitura de Guarabira chegou a procurar os proprietários com a proposta de adquirir o casarão e transformá-lo em museu. A iniciativa gerou expectativa e os primeiros trâmites para aquisição foram iniciados, mas a negociação não teve prosseguimento. E enquanto o caso segue sem definição, o imóvel continua se deteriorando e oferecendo riscos estruturais à vizinhança, motivo que levou a Justiça a determinar a demolição.
O caso ganhou repercussão nas redes sociais depois que o professor guarabirense Daniel Fernandes relatou, em uma publicação, o contato que teve com uma das herdeiras da família proprietária. Segundo ele, a atual gestão municipal chegou a se reunir com os familiares para discutir a aquisição do imóvel, incluindo a proposta de um espaço de homenagem ao antigo proprietário dentro do futuro museu, mas, com o passar do tempo, as mensagens enviadas pela família deixaram de ser respondidas.
Em contato com o blog, Fernandes afirma ainda ter procurado diretamente o secretário de Cultura do município, que teria alegado falta de recursos para viabilizar a compra do casarão. Para o internauta, no entanto, a explicação não se sustenta diante dos gastos do município com eventos como a Festa da Luz e o São João. Segundo ele, o entrave não estaria na disponibilidade financeira, mas na ordem de prioridades da gestão municipal.
Considerando casos semelhantes, algumas questões de justiça também dificultam a negociação. Contudo, na gestão do ex-prefeito Zenóbio Toscano, um casarão que ficava em pleno centro comercial de Guarabira foi reformado tendo seus traços preservados. A obra feita no casarão dos Cunha Rêgo foi bastante celebrada e elogiada pela população. O ex-prefeito Marcus Diogo também fez sua parte recuperando a antiga estação – pelo menos uma parte desse complexo de estações.
Debate antigo
O atual casarão poderia, inclusive, ser inserido nesse complexo relacionado a estação. O caso reacende um debate antigo em Guarabira: o da preservação do patrimônio histórico diante do avanço da especulação imobiliária e do descaso com edificações antigas. O Código de Obras do Município já estabelece a preservação da paisagem e da memória da cidade por meio da valorização do seu patrimônio, do planejamento urbano e da análise de impactos de obras, construções e demolições na cidade.
Mesmo com essa diretriz, casos como o do casarão mostram a distância entre o que a lei recomenda e o que, na prática, acontece com imóveis históricos como este casarão, que testemunhou mais de um século de transformações urbanas, sociais e culturais, ajudando a moldar a identidade local. Perdê-lo significaria não apenas a demolição de um prédio antigo, mas o apagamento de parte da memória coletiva, justamente o tipo de perda que a legislação municipal, ao menos no papel, busca evitar.
O espaço está reservado para a Prefeitura de Guarabira caso a atual gestão deseje se manifestar e compartilhar uma atualização sobre o andamento das negociações e eventuais tratativas em curso para evitar a demolição desse imóvel.

