
Recentemente, ao ouvir um programa de rádio chamado By Night, evidentemente levado ao ar no período noturno numa rádio popular, eu criei uma expectativa que considero natural para alguém minimamente atento à linguagem radiofônica. O nome remete à noite, que a meu ver pede mais intimismo, trilha sonora mais suave, canções românticas, MPB ou músicas que dialoguem com o fim do dia e com o estado emocional de quem já desacelerou. Eu também esperava uma locução mais falada, pausada, quase como uma conversa ao pé do ouvido, sabe? No entanto, o que ouvi foi, completamente, diferente…
O repertório musical era, majoritariamente, sertanejo, gênero popular, mas que não dialogava com a proposta do programa, sobretudo se consideramos o nome. Além disso, a locução era “acelerada”, com um ritmo típico de programas diurnos e o locutor ainda fazia entradas frequentes com boletins esportivos, especialmente sobre futebol, quando poderia fazer traduções, reproduzir fragmentos poéticos, por exemplo. Esse conjunto de fatores não, apenas, destoava do conceito esperado pela audiência, como também quebrava qualquer tentativa de criar uma ambientação noturna acolhedora e coerente.
Essa audição me provocou a me fez refletir sobre a importância do alinhamento editorial no rádio. Um programa não é somente feito de músicas e “palavras jogadas ao vento”. Ele é um produto de comunicação que precisa ter identidade. Nome, horário, repertório musical, conteúdo informativo e estilo de locução devem estar em absoluta sintonia. Quando um desses elementos foge da proposta, todo o conjunto se fragiliza, avalio. O rádio, mais do que qualquer outro meio, trabalha com sensações, com clima, com essa ideia de companhia. E isso exige coerência no modo de fazer.
Não se trata de estabelecer regras engessadas ou de limitar formatos, mas de compreender que cada faixa de horário tem uma escuta diferente. À noite, por exemplo, o ouvinte busca conforto, tranquilidade, reflexão… Portanto, inserir conteúdos que pedem agilidade, como boletins esportivos ou notícias policiais, por exemplo, adotando, também uma comunicação apressada num programa cujo título tem a ver com romantismo, é ignorar o comportamento de quem está do outro lado do receptor. O resultado disso é um “ruído” entre o que se promete e o que se entrega.
Como especialista em Comunicação, eu acredito que Rádio é um negócio que exige estudo. E ele só se fortalece quando respeita sua própria lógica interna. Um programa chamado By Night precisa levar em conta elementos que tenham a ver com a noite. Caso contrário, perde-se a identidade, confundindo a audiência e desperdiçando a oportunidade de criar uma conexão verdadeira, como ocorreu comigo. No rádio, tudo comunica. E quando não há conhecimento para garantir o devido alinhamento editorial, a mensagem simplesmente não chega como deveria e a identidade se perde no ar. #Opinião
Este artigo foi escrito e publicado inicialmente no Blog do Lenilson Balla em 09 de janeiro e reproduzido, posteriormente, no Blog do Ikeda, IV PODER e nas redes sociais do editor